domingo, 21 de julho de 2013

au cœur de la flore


tão complexas as estações que passam,
sempre anunciam uma nova era
pois é atravessando um longo inverno  
que se chega à primavera.

mas era essa, a estação que abriga
suas madeiras e suas folhas
para não florear perto de mim, você então se escondia.
Porém eu te encontrava,
atrás do alfaiate que lhe fez bonitas vestes
toda a camuflagem um dia surge
da tristeza dos velhos ciprestes;
o centro da floresta que urge
bradando cálidos cantos silvestres.

De um outono que trouxe à tona,
as frutas de uma árvore oculta
em silêncio também chorava,
a queda de suas folhagens.

Aguardei, vi o sol chegar
esquentar as tuas ramagens,
Para deixa-la bem macia,
O sol então, acaricia,
Todo o caule do alecrim,
como lírios selvagens inebriados
Pelo cheiro doce da flor de jasmim.

São como camomilas recém-colhidas
Unidas a uma fresca flor-de-baunilha,
Banhadas em puro mel de abelha,
Como néctar que escorre
d’um riacho que se assemelha,
desagua no lago que espalha,
a luz que decerto te espelha.

Vênus, pátria das abelhas
me abriu um sorriso largo
estava feliz porque sabia
suas filhas extrairiam
o sumo de  todas as flores,
que transformam a lágrima salgada
em serenos rios de água doce.

e mesmo que estivessem geladas
por um resquício da friagem
as abelhas aguentam, e seguem viagem,

molhada por obra de fortes chuvas,
a abelha sempre enfrenta
o nível de toda situação
para fazer o seu mesclado                                                               
à todos os cheiros se atenta,

procura calêndulas e melissas,
dálias e rosas sem espinho,
e por cada dia da estação,
também recolhe no caminho,
alguns dentes-de-leão.

Eu pude ver a cor da voz
Cada som assim mostrava
um lábio coberto, um gosto incerto
suavemente aveludava
na avelã e no mel
casados com outros gostos,
que lembravam as frutas vermelhas
sei que aqui habitam abelhas
que arquitetam as suas casas;

a colmeia é arte sacra,
na forma do moinho de vento,
para que o pólen se propague
o moinho toma coragem
de superar um cata-vento 

a luz opaca da aurora,
revela os versos que eu fiz;
no coração da flora, mora

o segredo da flor-de-lis.                                                       

segunda-feira, 24 de junho de 2013

      


                               Aderir à revolta climática
                             Aderir à fumaça beber chuva ácida
                           Azia temporal, o interior    queima.






sábado, 1 de junho de 2013

CALMARIA





Calma.
Furtivo sentimento deixa – alma.
Voa. Estranho pensamento – sabe Assobio na poeira – lábios.
Sussurro, sobe, Ressoa.

A voz de um silêncio – cala.
Joelho bate em pedra, voz que destroça e ralha
implacável que nem água - toda a água do mundo escorre, Escoa.

a voz que desce a rua e contorna, ladeiras e labirintos, abismos e feridas]
pelas cidadelas a água passa [curva serpente oculta ciranda circunda íngreme
por muros as raízes descem -  avistam homens pisoteando árvores [dança de calcanhares
orvalho morto caules rachados a vida brota não sei de onde [nem todo eco é lógico

e cavalgam e cavalgam mais outros homens, montados nas sombras do dia,
montados nas luzes da noite [e criam reluzes deslumbres que lembram o ouro
e cavalgam sobre as cinzas e cavalgam sobre todas as coisas, abafam todos os barulhos
estalam estáticos os sons elásticos, mentirosos como os nossos grifos
pré-maturam os primeiros gritos [a dor dos gigantes esquecidos

quando inventaram um calor de vento
então deram nomes às estações do tempo
sentindo os frios que no rosto sabem arder
queimando o coração que a guerra há de comer
rebate salpica a pele - gotas de sangue e de prana
a tempestade dispara o ciclo e a calmaria inflama
a superfície da terra que um dia era plana.




domingo, 21 de abril de 2013

de um tipo de Infância


Então aí eu escreveria uma coisa bem bonitinha, mas chega de beijos porque nasci de cólera. Então eu nasci e minha mãe gostava do John travolta. Meu pai sempre curtiu led zeppelin e eu chorava quando brigava com meu irmão. Minha mãe me apresentou a ópera tommy. meu pai chegava tarde do trabalho. Dizia que bebia porque tinha que puxar o saco do chefe. Minha mãe jogava tarô e meu pai brincava de caratê comigo. Eu tinha um playground com latas de lixo. Eu pintava de azul a parede e gritava que eu tinha um sino da liberdade. Eu não sabia quem era a liberdade por mais estranho que se possa falar nisso. Eu tinha um amigo que queria ser o Lex Luthor. Eu nunca quis ser o Super-Homem. Mas confesso que já quis ter o cabelo dele. Eu me assumo: eu tinha gel NY looks. No outro lado tinha uma mulher de bigode que varria a casa. Eu só a vi uma vez. Ela nunca sorria. Talvez porque tinha bigode. No asfalto pintavam o He-man para as festas de fim de ano. Mais tarde tinha o Pepsinho e o amarelinho, mascotes da copa do mundo. Tipo nove horas da manhã: vi silfo detrás da montanha que de lá vinha bala. Feria cadeira feria coragem, silfo dava luz. eu não sou mentiroso de seis anos. Meu pai é comerciante capixaba, minha mãe, psicóloga carioca. quem sou eu? -----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A Visão de estoque do profeta


o profeta de barba na calça
calçou suas botas soberbas.

arregaçou sua visão de estoque,
e avisou à multidão de bonitos:

"no futuro, todos vocês serão animais em um dia da semana
e plantas em certos dias do mês,
isso, é claro, depois de passarem vários dias e quem sabe até anos,
sendo os meus sorvetinhos de creme."

Ao final da afirmação, todos os presentes foram se transformando, um a um,
em robustos seios de mulher.

Enquanto isso ia acontecendo, um dos pobres diabos gritava, já perdendo sua voz:

- Profeta, o senhor errou em suas provisões!

um último robusto seio de mulher ainda teve forças para murmurar:

- Seu burro, é previsões...






sexta-feira, 18 de novembro de 2011

i tempestari

tempestuosos dias em que nuvens encobrem copas
e das copas escuras se refletem as sombras no chão.

o chão é onde caminho quando chove e não quero esperar a chuva passar
porque eu gosto da chuva]

escuro entre o chão e o alto daquelas árvores
entre mim e mediar a escuridão
a velha discussão sobre os limites das coisas
[debates de cores frias



sonho o gosto de roubar a chuva, eu falo de possibilidades,
de compra e venda dos créditos d'água: eu engano as tempestades
porque agora a tempestade sou eu
[é sempre aqui dentro que chove

tempestuosos dias em que nuvens encobrem copas
é como se o negativo do filme revelasse (o comportamento dos cheiros)
água em formato de chuva
desce e escorre
no seio da terra,
no colo da pedra
na face do homem,
para se transformar em outros formatos
ditar as regras das cores
evoluir a cadência das gotas
[a água volta a ter cheiro de água.

não vou esperar meu sonho acabar,
não sei se posso beber meu sonho durante a chuva.

eu não vou plantar, não vou molhar colheitas,
eu nunca espero uma estação terminar, eu possuo a tempestade.

vou a uma outra aldeia, uma que ninguém conheça minha fama de
tempestuoso.
[é que eu gosto de chuva









quarta-feira, 26 de outubro de 2011

caminhar sobre as direções


Em 15 de outubro de 2011 10:57, Daniel Bosi escreveu:


bom e velho amigo,
tive um sonho muito estranho hoje.
muito místico, complexo, cheio de enigmas herméticos, lembranças vividas e não vividas, ou esquecidas. elaborei um pequeno texto tentando te ilustrar o que senti. espero do fundo do coração que você goste e que consiga compartilhar pelo menos um pouco do que senti.
esse texto também também é seu. use-o da maneira que lhe convier.
abraços saudosos,
Daniel Bosi.


eu e vc combinávamos uma viagem. e fomos viajar.

era o chile, mas não era bem o chile. era a argentina, mas não era bem a argentina.
era como se estivéssemos no lugar onde começa a América Latina. Não era um país nem uma cidade, era um lugar onde todas as direções latinoamericanas encontravam-se.

era o ponto de encontro onde não haviam fronteiras, nem barragens. Não haviam países mapeados nem barreiras da natureza. Os andes não podiam nos parar, os desertos não podiam nos parar, as florestas não podiam nos parar. e nunca um lugar foi tão latinoamericano. era como caminhar sobre as direções que nos levam ao caminho de casa.

estávamos vestidos com túnicas, que eram uma mistura de trajes árabes e capas andinas. Tínhamos as barbas grandes e negras. caminhávamos sobre um local que não conseguíamos nomear, mas sabíamos que aquilo era a mescla do que foi e do que é - a América Latina que vive em nossa lembrança.


as regiões interligavam-se. conseguíamos, apenas com o mover do pensamento, enchergar o deserto, as montanhas, a neve, os ventos, as tempestades, os animais e os humanos, e entre todos esses elementos havia o caminho.

Ríamos e conversávamos. Calculamos que em um dia e uma noite de caminhada pelo chão de terra, chegaríamos ao lugar que não conseguíamos nomear.

Era como caminhar sobre as direções. e as direções sempre nos levava ao mesmo lugar, e por incrível que pareça, mesmo sabendo disso, estávamos felizes e satisfeitos, pois tínhamos a certeza de que o lugar a chegar não fazia nenhuma diferença. Nosso objetivo era caminhar sobre as direções latinoamericanas e nada mais importava.

Era uma dimensão secreta, não havia dúvidas. Um lugar sem mapa impresso, apenas digitalizado no interior de nossa sede de estarmos libertos de tudo. Um mapa que vive para sempre dentro de nós. Um mapa onde o único norte é o nosso senso de liberdade e nosso poder de querer viver e querer amar. 


Daqui podíamos enxergar tudo, sem ter o medo do que está longe (ou do que está muito perto).

Podíamos sentir o segredo que as pedras contavam com seus lábios invisíveis. Recheados de histórias, dos tempos mais incrivelmente antigos. Cidades que existiram, cidade que ainda estão por vir. Concluímos que muitos dos que estudam este lugar, pouco sabem sobre ele. Só as pedras e a terra possuem memória. A verdadeira memória. Aquela que não podemos lembrar, só sentir. A terra é o maior exemplo de humildade que existe. A chuva vem para fazer o sangue que se derramou por cima da terra, entrar. E se acoplar na memória de terra. e se juntar ao fogo. e do fogo, criar lava. E da lava, criar pedras, e por esse motivo que as pedras armazenam a história da terra, a história dos mundos. toda a lágrima, todo o suor, todo o sangue, todo a bestialidade, todo o amor.

a América atual, a América antiga. Uma coisa só. 500 anos atrás. 1000 anos atrás. 1000 anos na frente.

o sonho acabou antes de chegarmos ao nosso objetivo, e foi ao acordar que percebemos que o objetivo era apenas viver.

aqui é a soma de todas as coisas.